Recordo-me de uma praga que minha mãe disparou contra mim: que um dia eu iria amar alguém, ser desprezado, chorar e ouvir com gosto as músicas do Nelson Gonçalves, Jamelão, Maysa e Cartola, que eu odiava quando jovem. Dito e feito. Hoje são lágrimas, cervejas, saudades e escuto o vinil “Detalhes”, do Roberto Carlos.
Eu também achava piegas os poemas de Gibran Khalil Gibran, que ela declamava. Eram sem sentido para mim. Hoje me curvo e publico aqui “Os Filhos”. Assim como minha mãe, leio e releio, tentando compreender e aceitar estas palavras.
Vossos filhos não são vossos filhos
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem rápido e para longe
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro
seja vossa alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.
Gibran Khalil , do livro : O Profeta