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PERÍODO DAS TREVAS
Tenho absoluta consciência que estamos vivendo um período obscuro da história. Sempre imagino como seremos estudados e definidos daqui há três ou cinco mil anos. Seremos taxados de um povo primitivo, supersticioso e imbecil pelos historiadores do futuro.
Mesmo acreditando que temos uma cultura e uma tecnologia muito avançada, continuamos fazendo guerras, destruindo florestas e acreditando em milagres.
Acreditem. A freira francesa Marie-Simon-Pierre alega ter sido curada do mal de Parkinson pelo finado papa João Paulo II.
O estranho é que além de ter sido curada por um homem morto, é preciso lembrar que o papa não se curou do mesmo mal enquanto estava vivo.
O ridículo é que isso sai na imprensa internacional na maior cara de pau. Ou seja, uma cura sobrenatural anunciada como sendo normal e ninguém questiona.
Ninguém diz que a freira é uma grande mentirosa, que o papa morto não curou a freira de nada, que tudo é uma jogada de marketing do Vaticano e tudo fica por isso mesmo.
Por isso seremos taxados de primitivos pelos povos do futuro. Não necessariamente pelos milagres que o Vaticano anuncia ou porque as redes de televisões do mundo inteiro divulgam abertamente, mas porque milhões de pessoas acreditam e se comovem com coisas bizarras como estas. Milhões que vão gastar seus cérebros e dinheiro em orações, romarias e a compra de figurinhas com a imagem de um santo. Pior, muitos morrerão com a fé de que serão curados por milagres de santos.
A diferença entre a idade média e a nossa é apenas uma bomba atômica no meio.
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Enquanto isso...
Acho engraçado. Morro de rir com o desespero e o destaque dado à crise nos aeroportos. CPI no congresso, machetes nos jornais, Lula reclamando, Aeronáutica prendendo, Jornal Nacional, greves, brigas e choros. Protestos!
Uma greve de 70 controladores que atingiu umas cinco mil pessoas neste final de semana. Imagina um passageiro esperar 10 ou 15 horas por um voou? Ficaram nos aeroportos climatizados, cafezinhos, lanches, sanitários limpinhos. Uma tragédia.
Enquanto isso...
Nesta semana milhares de pessoas morreram, e muitas delas crianças, de doenças e acidentes. Estavam nas filas de espera do SUS.
Estavam no chão dos corredores dos hospitais públicos. Os gritos de socorro nas emergências. Grávidas batendo de porta em porta das maternidades. Faltam leitos, medicamentos, médicos e um governo sério.
Hoje, segunda-feira, mais de um milhão de pessoas esteve nas filas para marcar consultas. Depois nas filas de espera que duram um, dois e até três meses para uma consulta médica. Que remarca o exame, que remarca nova consulta e que remarca cirurgias. Meses e meses de espera silenciosa, comportada, sem cidadania.
Todos os dias, de segunda a sexta-feira, pessoas tem que dormir nas calçadas dos hospitais para conseguir uma merda de uma ficha numerada.
Nas madrugadas, em mais de cinco mil cidades brasileiras, saem ônibus, kombis, caminhões e ambulâncias lotados de pacientes para as capitais.
Aqui no Recife há um hospital público especializado em atendimento infantil e o Hospital Câncer. Chegam por dia mais de 80 ônibus vindos do interior. Milhares de crianças na calçada a espera de um atendimento.
Duvido que qualquer pessoa que leia este meu blog possa dizer que em sua cidade é diferente da minha.
Todo pobre que morre de uma doença deixa um cartão com uma consulta marcada.
Mas isso não sai no Jornal Nacional, não gera CPI no congresso, o Lula não reage e os militares não brigam. Não há crise na saúde. Não se faz greves e o Brasil não pára.
Enquanto isso tem a Dança dos Famosos no Faustão, o final do Big Brother, o Lula visita o Bush e a crise dos aeroportos...
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